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domingo, 10 de outubro de 2010

A "ESTANTE DE TIJOLOS" E A MINHA FUGAZ INTELECTUALIDADE DE ESQUERDA !

Fui uma criança totalmente alienada politicamente. Pudera! Eu sequer entendia o clima nebuloso, repressivo e ameaçador da década de 70... Tempos de Ditadura Militar meu bem. O cenário era verde oliva e as atitudes eram “a la Garrastazu Médici”. Aquela coisa... Direita volver e esquerda jamais!!! O preto coturno do exército brasileiro dominava o pedaço. E eu - demente - colecionava as figurinhas do Álbum “Brasil, Ordem e Progresso” e ainda “morria” de cantar na escola: EU TE AMO MEU BRASIL! Enfim, eu, como tantos outros, fui um garoto desorientado no tocante ao militarismo ditatorial e seus atos execráveis. E quando vim entender melhor “as coisas” já era tarde demais... A Ditadura estava com os dias contados. E junto com ela, o meu sonho de um dia vir a ser um militante do partido dos camaradas vermelhos. Sim! Mas o que é que tem a ver a “Estante de Tijolos” (modismo “desbundado” na década de 70) com a Ditadura Militar (1964/1985)...


Tem tudo a ver. É que antes de completar 14 anos eu já tinha decidido que seria um “intelectual” de esquerda. Pode? Então coloquei na cabeça que tinha que ser complicado, esquisito, subversivo, hippie e o escambau... Lia tuuuuuuuuuuudo. Desde A ILHA de Fernando Morais, passando por FELIZ ANO VELHO do Rubem Fonseca e GOTA D’AGUA do Chico Buarque e Paulo Pontes. E todos esses livros (com crivos da censura) saíram da “Estante de Tijolos” da amiga de minha tia Dagmar, chamada Conceição Fonseca (Ceça). Advogada e militante radical do Partido Comunista. Meu sonho de adolescente na época era ter um kitnet igual ao dela. Chamava-me a atenção os tapetes de sisal espalhados pela sala; as várias almofadas estilo indianas de tudo quanto era tamanho; as samambaias na janela e um pôster do CHE junto com o de MARIGUELLA. E em seu quarto - reinava absoluta - a famosa “Estante de Tijolos” recheada de livros subversivamente maravilhosos. A estante era feita da seguinte forma: Três tábuas bem compridas (retangulares) pintadas de branco e doze tijolos com furinhos no meio. Primeiro colocava-se os tijolos no chão (de forma que ficassem espaçados uns dos outros) e depois era só colocar as tábuas por cima. E de forma alternada a “Estante de Tijolos” ia tomando corpo...


Lembro que todas às vezes quando ia visitá-la, juntamente com a minha tia, ela me dizia: “companheirinho, vai lá à estante que tem coisa nova por lá”. Era como receber um passaporte pra felicidade. Eu deitava no chão e ficava ali, horas e horas... Tinha alguns livros que ela não me deixava mexer. Dizia que ainda não era o momento, como por exemplo, O LIVRO VERMELHO do Mao Tsé Tung e os livros de Adelaide Carraro e Cassandra Rios... (esses eu li escondido dela). Foi na casa dela que conheci o escritor Roberto Freire (ele autografou meu livro Coiote nesse dia). A minha relação com a “Estante de Tijolos” da companheira Ceça era tão íntima, que ali mesmo eu chorava, ria, me revoltava e falava mal do capitalismo pequeno burguês. Pois é, nasci em plena Ditadura e passei minha adolescência no auge da luta pela Anistia Ampla Geral e Irrestrita. Sonhava com um governo popular das massas, desejo de libertação proletária... Enfim! Hoje o sonho acabou. E me entristece ver tantos intelectuais de esquerda na pós-Ditadura, abraçando os frutos de uma sociedade capitalista como a nossa. Ainda bem que a minha companheira Ceça e sua “Estante de Tijolos” já não estão mais por cá. “E viva eu, viva tu e viva o rabo do tatu”.

16 comentários:

VELOSO disse...

Seu post retratou bem minha infância feliz e alienada!
Parabens por tudo!

Tertúlias... disse...

ARRASOU!!!!!!!!!!!!!

Enaide Alves disse...

Dhotta, a maioria deste livros aí também consta na estante da minha prima Aldenoura, até já peguei alguns para ler, ela como sua Tia também é de esquerda.
Quanto a mim, eu te diria que ali até por volta de 1977, eu era totalmente alienada, mas já por volta de 1978 em diante eu comecei a participar dos acontecimentos políticos, pela televisão, claro.
enfim vivi a ditatura militar, pena que os jovens de hoje a maioria não sabe nem o que é ditadura, será que pelo menos ele sabem quem é Yoani Sanchez?
Ali, por volta de 1978 a 1979 eu ja lia o AKIO MORITA, e já sonhava com a abertura da economia moderna no Brasil.
Grande Texto o seu Parabéns!

Dilberto L. Rosa disse...

Rá Rá Rá genial o final! Só cantarolando assim para desanuviar a dor que as dicotomias mundiais acabaram tomando: Fidel eternamente no poder, minguando aos poucos dentro de seu casacão da Nike; Mao Tsé e o inferno causado aos pensdores na China; Stalin e a Sibéria como Inferno daqueles que sobreviviam às suas perseguições... E o capitalismo selvagem vestiu pele de cordeiro e se irmanou com os filhotes da Esquerda que chegaram, enfim, ao poder... É rezar para que cada vez mais possamos unir esses binômios tão complexos em prol do povo e de uma democracia ampla, geral e irrestrita!

Ah, e um barato mesmo a estante "desbundada"! Muito boa a crônica: parabéns! E abração!

Andréa M. Góes disse...

Sinceramente meu querido,

Nunca imaginei você numa horta comunitária ( felizzzzzzzzzz da vida) plantando arroz lá na China de Mao Tsé Tung... Viva eu, viva tu e viva as catrevagens de seu Baú. kkkkkkkkkkk Te amo Lindão!

Ana Cavalcantti disse...

Oiiiiiiii !!!
Obrigadinhaaaaaa !!!

Vixi eu nasci em 76 rs e sempre fui muito alienada com a politicagem .
Não tem muitos anos que me interesso não...meus pais nunca me passaram que eu tinha que entender o assunto , muito menos as escolas que eu estudei....isso é dramatico, onde ja se viu , vc estudar filosofia na escola rs e não darem uma base do que é o que nesse assunto !

Beijoooooooos

Nando Vieira disse...

Queridão!

Esse resgate "desbundado" da década de 70, A ESTANTE DE TIJOLOS, mexeu comigo... Como pode você desenterrar coisas que ficaram pra traz há tanto tempo. Minha mãe fez uma dessas estantes para o quarto da minha irmã, as tábuas eram pintadas na cor rosa, e os tijolos de branco. Você consegue remexer nos reconditos mais profundos de nossas vivências. VIVAS A VOCÊ MEU QUERIDO!

Taís disse...

Muito bom... sempre que eu venho por aqui encontro algo que também teve a ver com a minha infância. É uma delicia realmente.
bjos

Lusa Vilar disse...

Muitas vezes eu tenho a impressão de que tuas postagens são diretas para mim, rsss
E não é que eu tenho uma foto, vestida de noiva, aos pés desta bendita estante!
Novamente eu me lembro de Leta, minha irmã, quem manda ela ser cômica e andar fazendo graça com tudo que vê!
Certa vez, Caco Antibes, no Programa Sai de Baixo, naquela parte "Eu odeio pobre", referiu-se as canecas que enfeitavam as estantes das salas de visita dos benditos pobrinhos.
Leta estava assistindo ao programa e quando escutou isso, pulou do sofá, arrancou da estante dela todas as canecas e esbrafejou:
Isso só pode ser comigo, deve ter mandado algum olheiro aqui em casa para arranjar assunto para o programa de hoje, kkkkkk
Minha foto junto da estante está lá no Blog "O Casamento" e, semelhante a Leta eu pensei:
Dhotta veio buscar inspiração por aqui! kkkkk Ah! se eu te pego ...

E quanto a tua fugaz intelectualidade de esquerda ...
Lembro-me de que quando o Dr. Miguel Arraes foi deposto, 1964, meu pai era o Prefeito da nossa cidade. Nós havíamos apoiado o Dr. Arraes para governador e para comemorar a vitória saiamos em passeata vestidas de vermelho (Jacimã Leite, que organizou). Houve uma denúncia ao IV Exército e os homens chegaram para apurar. Tiveram que explicar que se tratava de um bando de crianças que, de tão inocentes, comunismo para elas era sinônimo de papa figo.Arquivaram a denúncia, salvaram um bocado de boboca do pau de arara, kkkk

Henrrique Andrade (Rico) disse...

Texto fantástico!

Uma delícia de ler. Parabéns!

luciano.pandora disse...

Nossa! Gostei Muito do seu Blog, entrei a primeira vez por acaso e já está nos meus favoritos. Dei muita gargalhada com tanta nostalgia.
Muito Bom!

Pati Araújo disse...

Oi Dhotta,

Meu irmão, Geraldo, tinha uma estante dessas kkkkkk, com muitos romances legais que eu com uns 13 pra 14 anos li, me deliciando 'rs'
Agora, o negócio é mais sério, meus pais sempre foram de esquerda, então aqui em casa tinha livros tipo: Brasil: Nunca mais, Tortura nunca mais e por aí segue... o danado é que eu lia, ainda adolescendo e mãinha e painho deixavam 'rs', eu ia para reunião de partido, ia para comício... enfim, uma verdadeira vida de militante kkkkk
Depois de adulta, não quero nem saber dessa vida, é tal e qual um sacerdócio, depois que você abraça a causa, seja ela qual for, já era!
Tá fisgado...

Beijos, amigo!
Com todo o meu carinho,
Pati :)

Paulo Braccini disse...

kkkkkkkkkk ... me vi perfeitamente neste post pois tb colecionei todos estes livros devidamente alojados em magníficas estantes de tijolos ... delícia esta lembrança ...

adoro isto aqui ... MIAUUUUUUUUUU!!!

bjux

;-)

Marco disse...

Pois é, caro amigo Marcos...
Eu também despertei um pouco tarde para os tempos de chumbo que me rodeavam. Já estava na faculdade e via o couro comer. De vez em quando, saíamos das salas sob escolta da PM. E tome protesto!
Por essa época, comecei a ler livros e jornais que me abriram os olhos.
Bela postagem.
Carpe diem. Aproveite o dia e a vida.

Ana Cavalcantti disse...

Oiiii
Tudo bem ?
Eu voltei só ontem com o meu blog novo ...novo endereço e novo perfil..entao vou te seguir o novo agora tb ...

Mas e vc pq ta sumido tb ?
Beijos marcos ..bom final de semana !!!

Olho no olho. disse...

Gostei muito deste texto e me vi em alguns parágrafos.Também tive uma tia que me apresentava ao mundo da leitura, tia Janete. Todavia, os livros que ela me dava eram livros mais, digamos, leves. As autoras que você lia escondido eram as preferidas de minha mãe, o que me trouxe saudades. É bom ler seus textos e ver suas postagens no facebook, elas me trazem grandes recordações.
Abraços,
Francisco Diniz.